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HENRIQUE DIAS
Combatente de Guararapes
É no fragor da Batalha dos Guararapes, o auge das lutas dos brasileiros contra a
invasão holandesa, que a flor amorosa de três raças tristes, como cantou “Olavo
Bilac”, que nomes de cada uma dessas três raças se projetam para, através delas,
consolidar o sentimento da brasílica nação que surgia no cenário internacional:
Vidal de Negreiros, do lado lusitano; Felipe Camarão, indígena por excelência; e
Henrique Dias, representando a estirpe negra afro-brasileira.
Como neste painel estamos delineando os contornos da personalidade negra que
ajudou na formação de nossa nacionalidade, neste caso configura na pessoa de
“Henrique Dias”, guerrilheiro negro que se destacou naquelas epopéias, com o seu
batalhão de negros descalços, conforme os pintou Vítor Meireles.
Henrique Dias é uma figura controvertida pelo fato dos registros históricos
colocarem-no, ora como capitão-de-mato que se atirava contra os quilombos, nesse
caso, alugando os seus serviços para os escravocratas, ora como herói que lutava
com bravura e sacrifício de sua própria integridade física – pois em combate
perdera uma das mãos e prosseguiu na luta ao lado dos brasileiros na expulsão
dos holandeses do território nacional.
Em razão desse quadro de sombra e luz, o nome de Henrique Dias para os críticos
negros mais severos é visto com reservas.
A atuação de Henrique Dias na primeira e na segunda batalha dos “Guararapes”em
1648 e 1649 foi digna de um grande militar por estar ao lado de outros valentes
soldados, como “Vidal de Negreiros” e “Felipe Camarão”, infligindo aos batavos
duas acachapantes derrotas, culminando com a redenção final dos holandeses, fato
que ocorreu no dia 26 de janeiro de 1654. É nesta data e local que muitos
historiadores acreditam encontrar o berço sobre o qual a nação brasileira dera
os seus primeiros vagidos de vida, contando-se a partir daí, o surgimento da
consciência de nossa própria nacionalidade. Osvaldo de Camargo, em seu livro, “O
Negro Escrito, nos relata que Henrique Dias é o primeiro negro que escreveu um
texto no Brasil por conseguinte, o primeiro afro-brasileiro letrado”. Ele se
queixa em carta dirigida ao “El Rei de Portugal”, datada de 1650, de ser tratado
com pouco respeito pelos heróis, com os quais se via obrigado a se relacionar em
terras de Pernambuco.
Assim começa a missiva: “Senhor, prostrado aos pés reais de Vossa Majestade, com
toda a devida submissão, manifesto em como há 20 anos que sirvo a Vossa
Majestade com bom zelo, que é notório, derramando meu sangue por muitas vezes, e
ficando sem uma das mãos que me não faz falta para deixar de continuar na
guerra, como atualmente estou fazendo....” Por esta carta nos é lícito
depreender que as chagas do racismo anti-negro já haviam se introduzido no
Brasil, dificultando a possibilidade de um salutar relacionamento entre negros e
brancos , em nosso País. Talvez Henrique Dias não tivesse a nítida noção desta
realidade que, com o ocorrer dos anos, vai se tornando cada vez mais
constrangedora para o convívio interétnico entre nós.