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PRÍNCIPE CUSTÓDIO
1º) Príncipe africano de Ajudá (José Custódio Joaquim de Almeida)
Envolto numa
auréola de nobreza autêntica viveu muitos em nossa capital uma figura estranha e
original que conservou todos os seus hábitos de origem e todos os ritos
extravagantes de sua seita negra.
“Ogum” teve em José Custódio Joaquim de Almeida um sectário fervoroso e honesto.
O “Príncipe”, como comumente era conhecido entre nós, se constituiu logo em um
semideus para os homens da sua raça. O seu credo traduzia a crença daqueles em
cujas veias existia ainda uma gota de sangue dos seus antepassados africanos.
Teve prestígio e força. Os seus 104 anos foram inteiramente entregues aos seus
irmãos de origem. Dentro de uma sincera reverência aos deuses que a imaginação
quente e primitiva de sua raça foi criando, não desamparou nunca os seus adeptos
fervorosos.
Agora, entre os seus discípulos da seita negra, um luto se levanta. Todos choram
a morte do príncipe de Ajuda. O príncipe morreu. Rolando o seu corpo rijo e
frio, houve um estremecimento forte na crença e na esperança dos seus adeptos.
Eles pedem para os seus deuses um continuador do seu mestre.
O Príncipe trazia em seu sangue uma origem ilustre. A sua estripe foi nobre. O
governo inglês mandava lhe pagar mensalmente, por intermédio do respectivo
consulado nesta capital, a subvenção que lhe era devida na qualidade de Príncipe
de São João de Ajuda, território que está sob o domínio da referida nação.
O Príncipe morreu e as preces sobem aos Orixás.
(Transcrito de “A Federação”, de 30 de março de 1935.)
São João
Batista de Ajuda era uma fortaleza portuguesa no Daomé. A feitoria de São João
Batista de Ajuda estava situada a cinco quilômetros da costa africana de Leste
ou dos “Papos”, entre os rios da Lagoa e do Volta, tendo sido descoberta pelos
portugueses, quando navegavam na costa da Guiné. Era a capital do antigo Reino
de Daomé, edificado numa vasta planície outrora muito povoada de cristãos
negros. O rei D. Pedro II (de Portugal) mandou construir a referida fortaleza a
fim de proteger o importante comércio que os portugueses faziam na Costa da
Mina.
A Costa da Mina era um território à beira do Oceano Atlântico no golfo da Guiné,
Foi ocupado pelos ingleses que ali estabeleceram importantes feitorias, que
passaram a ser defendidas pelas guarnições das fortalezas antes pertencentes a
Portugal, entre as quais a de São João Batista de Ajuda.
Daomé tem fronteira de um lado com Nigéria, que é o maior país da África atual,
e do outro, com Togo, possessão alemã de antes da 1ª Guerra Mundial, este velho
reino africano no começo foi a colônia de vários países que se estabeleceram ao
longo do seu território à margem do Atlântico, mas em 1876 a Grã-Bretanha
terminou a ação que iniciaria alguns anos antes comprando a parte dos demais
ocupantes, tornando, então, a Costa do Ouro inteiramente de propriedade dos
ingleses, os quais também tiveram de entrar em acordo com os reis negros que
governam o gentio. Desta determinação britânica resultou a deportação de um rei
africano, que somente em 1934 teve autorização para voltar a fim de passar
sossegadamente o resto de seus dias na terra natal. Com outros governantes foram
feitos acordos financeiros por eles aceitos a fim de ser evitado o massacre do
seu povo. Entre eles estava o príncipe de São João Batista de Ajuda que deixou
sua terra na Costa da Mina em 1862 quando tinha 31 anos de idade.
Ninguém sabe como e em que circunstâncias este príncipe governante deixou o
Porto de Ajuda, que era perto da Costa do Ouro (hoje República de Gana), onde,
em algumas décadas anteriores, funcionava um dos principais locais de embarque
de escravos para o Brasil, mas o certo é que ele partiu ante a promessa solene
dos ingleses de que o seu povo não sofreria o que o haviam sofrido os grupos
vizinhos ante a violência dos alemães e franceses. Os portugueses antes
poderosos tinham se contentado com uma parte de Guiné e com Ilhas de São Tomé e
Príncipe cedendo as suas fortalezas. As condições para que o príncipe de Ajuda
não oferecesse qualquer resistência aos invasores, além do respeito pela vida
dos seus súditos, era a de que ele se exilasse e jamais voltasse aos seus
domínios. E, como parte do convênio, a Grã-Bretanha se comprometia a
fornecer-lhe uma subvenção mensal paga em qualquer parte do mundo onde
estivesse, por intermédio dos seus representantes consulares.
Por qual motivo o exilado escolheu o Brasil como sua nova pátria, não se sabe.
Talvez por haver aqui grande número de descendentes dos escravos nativos da
Costa da Mina – os chamados “pretos-mina” - ou outra qualquer razão; sua chegada
a nossa terra foi assinada como acontecida em 1864, dois anos depois de ter
deixado Ajuda. Inicialmente fixou-se em Rio Grande, onde residiu longos anos,
transferindo-se mais tarde para o interior do município de Bagé onde ficou logo
popular por manter viva a tradição religiosa do seu povo (Batukajé) – com a
prática do que agora se conhece como Batuque – além de mostrar conhecimentos das
propriedades curativas da nossa flora medicinal, atendendo muita gente doente
que o procurava, tratando de minorar-lhes os males por meio de ervas e rezas dos
ritos africanos.
De Bagé mudou-se para Porto Alegre, onde chegou em 1901 com 70 anos de idade.
Era um homem forte, cheio de vida com um metro e noventa de altura o que ainda
mais se evidenciava quando usava as vestes originais da sua gente e colocava na
cabeça um “fez” de cor encarnada que lhe aumentava pelo menos mais vinte
centímetros de altura.
Foi morar na Rua Lopo Gonçalves, nº 498, cujos fundos davam para a Rua dos
Venezianos (hoje Joaquim Nabuco). Esta artéria era chamada “dos Venezianos” não
por causa da popular sociedade carnavalesca que por muitos anos existiu em nossa
capital, mas por ter suas casas quase que totalmente habitadas por italianos
oriundos da Sicília e da Calábria, que o vulgo confundia com venezianos (de
Venza); mas logo que o príncipe que havia adotado o nome brasileiro de Custódio
Joaquim de Almeida – ali se instalou, passou a rua a ser preferida pela gente de
cor que procurava com isso acercar-se do homem que, incontestavelmente, era um
líder da sua raça.
O príncipe Custódio – como então era chamado – iniciou ali uma nova etapa da sua
aventurosa vida, cercando-se em Porto Alegre de um aparato digno de um
verdadeiro fidalgo.
A família do príncipe de Ajuda aos poucos foi crescendo e não demorou a atingir
o numero de 26 pessoas, sem contar os empregados em boa quantidade.
Os fundos da casa onde morava – com saída na Rua dos Venezianos (Joaquim Nabuco,
hoje) – serviam para a sua coudelaria, pois possuía nada menos do que nove
cavalos de raça – alguns importados da Inglaterra – os quais todos os domingos
disputavam as corridas organizadas pela Protetora de Turfe no Prado
Independência. Para manter e cuidar esses animais havia um grupo selecionado de
empregados, jóqueis, etc., sob a supervisão direta do príncipe, que se
classificava como “tratador”. Nos domingos os cavalos inscritos nos diversos
páreos saíam da Rua dos Venezianos, devidamente cobertos por capas tendo as
cores oficiais do seu dono, rumavam pela Rua da Concórdia em direção à Venâncio
Aires, subindo, após, uma das ruas que ligam o Bonfim à Independência até
chegarem ao Prado nos Moinhos de Vento.
Na cocheira também estava colocado um “Landau” e os seus dois cocheiros, estes,
conforme as ocasiões, se apresentando devidamente uniformizados. Quando o carro
deixou de ser o veículo ideal para locomoção em nossa cidade, foi substituído
por um automóvel “Chevrolet” e o cocheiro por um motorista.
O príncipe Custódio tinha oito filhos, três homens e cinco mulheres (atualmente
ainda estão vivos um homem – Dionísio Joaquim Almeida, funcionário aposentado da
EBTC – em Porto Alegre, e duas senhoras, uma residindo no Rio de Janeiro e outra
em São Paulo) e para esses oito filhos, quando pequenos, mantinha quatro
empregados, um para a cada dois.
Seus conhecimentos de idioma português não eram muito corretos, porém podia
expressar-se fluentemente em inglês e francês, além de falar ainda vários
dialetos das tribos africanas que havia governado. Gostava de ir pessoalmente às
compras, quando isso acontecia, se fazia acompanhar de dois fortes homens, os
quais além de o custodiarem, serviam para transportar as mercadorias compradas
em grandes balaios.
As festas que levava a efeito periodicamente em sua casa – notadamente na data
do seu aniversário – eram verdadeiramente pantagruélicas. Durante três dias, com
o prédio sempre cheio de gente, da manhã à noite, se comia e bebia do bom e do
melhor ao som dos tambores africanos que batucavam sem parar naquelas setenta e
duas horas. E nesses dias o príncipe recebia a visita da gente mais ilustre da
cidade, inclusive do presidente do Estado, Borges de Medeiros que, conhecendo a
ascendência daquele homem sobre a população de cor, ia felicita-lo, talvez mais
por motivos políticos do que por outra coisa. Naquelas festejadas datas era
certo o comparecimento na Rua Lopo de muitas senhoras e cavalheiros da melhor
sociedade porto-alegrense, além dos capitães da indústria e do comércio que dele
precisavam o apoio para perigos de greves e outras imposições. As mais finas
bebidas eram importadas diretamente da Europa, especialmente destinadas a serem
degustadas naquelas ocasiões especiais, embora elas nunca faltassem à mesa do
príncipe exilado.
A casa do príncipe vivia sempre lotada de gente, de visitantes e de pessoas que
ele encontrava nas ruas e lhe pediam auxílio. Mandava essas pessoas embarcarem
na carruagem em que estivesse e as levava para sua residência onde sempre havia
lugar para mais um. Todos ali ficavam até que quisessem ir embora. Entre os que
viveram muito tempo junto ao homem meio-gigante da Rua Lopo, estava um branco,
descendente de alemães oriundo de São Sebastião do Caí, que tinha feito estudos
de Medicina e dessa maneira o auxiliava no atendimento aos doentes que
continuamente o procuravam em busca de remédios e dos “trabalhos” do chefe
africano exilado.
Para os rigores do inverno o príncipe Custódio adotou o poncho gaúcho, embora
não dispensasse o gorro que marcava a sua personalidade, não o deixando nem
quando visitava o Palácio da Praça da Matriz onde era sempre bem-vindo e onde
havia ordens superiores de bom atendimento, e onde ele muitas vezes usava o seu
prestígio para conseguir alguma coisa que lhe fosse solicitada por qualquer
membro da sua comunidade.
Durante todos os anos em que viveu em Porto Alegre – 31 ao todo – nunca manteve
correspondência ostensiva com parentes ou amigos deixados nas terras africanas.
De lá recebia informações e daqui enviava notícias suas em mãos por intermédio
de marítimos que tripulavam vapores vindos à nossa metrópole transportando e
levando mercadorias. Também nunca se soube o teor dessas correspondências. De
incentivo ao seu povo para uma possível rebelião não era, pois ele sabia ser
isso humanamente impossível. Além disso a Inglaterra, em todo o longo período do
seu exílio, sempre cumpriu religiosamente o que fora estipulado. Mensalmente o
consulado britânico local entregava-lhe um saquinho cheio de libras esterlinas,
cuja troca em mil-réis servia para manter a pequena corte da Rua Lopo, a família
numerosa, os agregados, os empregados, e ainda serviam àqueles que o procuravam
nos momentos de aperturas financeiras.
No verão, em janeiro, o programa era conhecido. Ia todo o mundo para a casa de
propriedade de Custódio Joaquim de Almeida, na Praia da Cidreira. A viagem para
o velho balneário era qualquer coisa de sensacional e folclórico. Embora fosse
dono de carruagem e tivesse dinheiro para alugar quantas diligências quisesse, o
príncipe gostava de viajar em carretas puxadas por bois na maior calma e na mais
incrível lentidão. E ainda mais: a viagem era feita por etapas em ritmo de
passeio, parando em, muitos lugares onde ele era sempre esperado com festas e
cerimônias religiosas africanas, muita comida e muita bebida, pois todos sabiam
que tudo seria pago pelo viajante ilustre. Dessa maneira nunca o trajeto de
Porto Alegre à Cidreira era feito em menos de uma semana. Quando eram gastos
apenas cinco dias, considerava-se em recorde e velocidade.
Com carretas de transporte dos passageiro seguiam outras carregadas de
mantimentos, inclusive muitos sacos de milho e dezenas de fardos de alfafa, aos
cuidados dos empregados, pois os cavalos de corrida do príncipe também iam aos
banhos de mar. Isso, ele como treinados e tratador, fazia questão fechada.
A maior festa que a Cidade Baixa já viu foi quando Custódio completou cem anos
(100) anos de idade. Nesse dia muita gente “bem” foi abraçá-lo em sua casa e
ele, dando demonstração de sua vitalidade exuberante, montou a cavalo sem
receber qualquer ajuda. Aliás, isso ele fez até poucos dias antes de sua morte,
quatros anos depois.
No dia 26 de maio de l936 morreu o “Príncipe Custódio”aos 104 anos de
existência. Seu velório e seu enterro, atendendo ao pedido expresso do morto,
foi feito dentro das tradições africanas com muito “Batuque” e muitos
“trabalhos”, em intenção à sua alma.
Com ele desapareceu uma das figuras mais impressionantes e esquisitas da nossa
Cidade – um metro e noventa de altura com mais de cem quilos de peso, embora não
fosse um homem gordo. E muita gente ficou desamparada, pois a subvenção paga
mensalmente em libras pelo Governo Inglês extingui-se com a morte do “Príncipe
de Ajuda”.